O pároco da  minha infância
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Fui batizado na Matriz de Nossa Senhora Candelária, a poucos metros da nossa casa, pelo Padre Luiz Gonzaga de Melo Camargo, último dos párocos de curta estadia em Itu, que desde 1954 passavam pela paróquia e não se fixavam, diferente da época dos sacerdotes ituanos, que muito tempo permaneceram no cargo; para dizer três nomes marcantes: Padre Miguel Correia Pacheco (27 anos), Padre Elisiário Camargo Barros (23 anos) e Mons. Monteiro (17 anos). Em 1971, chegou a Itu, por solicitação do povo que gostou do pregador da festa de Santa Rita, o Mons. Camilo Ferrarini, que não tinha pertencimento a Itu, mas marcou uma época longa e de profunda influência da Igreja sobre a sociedade, verdadeira liderança católica, afinado com as demandas mais significativas do Catolicismo de nosso tempo.
Até os 20 anos, eu frequentava a Igreja Matriz somente no tríduo pascal, quando não havia missa no Bom Jesus; nesta igreja eu fui coroinha, organista e regente do coro, completamente envolvido com as suas práticas, regidas pelos jesuítas. Mas o catecismo, cursei na Matriz. Desse tempo são as primeiras lembranças do pároco da infância, a figura acolhedora do Mons. Camilo, que me confessou pela primeira vez e de quem recebi a Primeira Comunhão.
Como homem, era o típico descendente de italianos, que abraçava as pessoas e mantinha laços de amizade, frequentando residências, abençoando pessoas, homenageando-as ao final das celebrações.
Lembro-me de uma Matriz lotada em qualquer das missas, aos domingos. Do Coro, do qual fui organista, víamos aquele povaréu que não arredava o pé, mesmo nas missas longas, à moda de Mons. Camilo, que estendia-se, nos dias de festa, para dar mais pompa aos atos.
Em seu paroquiato de 23 anos ainda eram grandes as irmandades e procissões. Ele organizava tudo com aquela autoridade que vinha do carisma. A voz enrouquecida, depois de tantas missas, batizados, encontros, visitas, sermões, era conhecida e acompanhada pelos fiéis que realmente confiavam em sua palavra simples. Quando havia quermesse, ele se sentava, de mesa em mesa, para “um dedo de prosa” com toda a gente.
Mons. Camilo não era grande pregador, mas um missionário, atencioso, sempre cercado de crianças. No Bom Jesus éramos menos de dez, os coroinhas. Na Matriz, havia mais de setenta, além das meninas que ajudavam os casamentos e os jovens que permaneciam na Igreja, depois da catequese, em grupos de perseverança.
É verdade que havia meia dúzia de tradicionalistas que o criticavam porque não usava batina e nem clergyman. Nem precisava, era conhecido e reconhecido por todos, pároco-modelo, do tempo do Papa Francisco, que clama por um clero de saída. Mons. Camilo Ferrarini foi gigante, época de glória de nossa matriz, homem da misericórdia e do perdão, acolhedor ao máximo; a sacristia vivia cheia de gente que se sentia realmente parte da comunidade.
Neste mês, em que ele completaria cem anos de vida, lembrar a sua presença marcante é refletir a sua atualidade nos tempos em que vivemos, de certo clericalismo, que na visão do Papa Francisco, é próprio daqueles que “interpretam o ministério recebido como um poder a ser exercido e não como um serviço gratuito e generoso a ser prestado”. Mons. Camilo foi o oposto: disponível e humilde, verdadeiro pai, que deixou enorme exemplo a ser seguido.