Dom Quixote e a  negação do Ser
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“Dom Quixote”, a magnífica obra de arte de Miguel de Cervantes, é frequentemente elogiada como uma das maiores criações literárias de todos os tempos. Neste artigo, pretendemos explorar um aspecto intrigante dessa obra: seu paralelo com a negação do “ser” na sociedade contemporânea. Aqui, argumentamos que “Dom Quixote” transcende a mera narrativa de aventuras cavalheirescas e fantasias, tornando-se uma profunda reflexão sobre temas como identidade, realidade e alienação, que são cada vez mais relevantes no mundo moderno.
Publicado em 1605, “Dom Quixote” narra a história de um fidalgo espanhol que, após devorar inúmeros livros de cavalaria, começa a acreditar que é um cavaleiro andante. Acompanhado por seu fiel escudeiro, Sancho Pança, Quixote se lança em aventuras que muitas vezes confundem a fronteira entre a realidade e a loucura. Dom Quixote, com sua teimosia e fantasia, personifica uma busca subjetiva pela afirmação do “eu”, que está completamente desconectada da realidade, enquanto Sancho Pança, com seu objetivismo e simplicidade, contrasta com a visão relativista de Quixote, representando a dura realidade terrena.
O famoso episódio dos moinhos de vento se tornou uma metáfora emblemática dessa loucura, sendo o ápice da jornada de Dom Quixote. Nesse momento, o destemido cavaleiro investe sua lança contra as pás em movimento de um moinho de vento afirmando que eram gigantes, com Sancho Pança atônito como testemunha. Sancho tenta em vão dissuadi-lo, mas Quixote insiste. Resultado: uma das pás do moinho derruba o ousado cavaleiro, criando uma imagem cômica e icônica na literatura que tem sido representada por artistas ao longo dos séculos. “Lutar contra moinhos de vento” tornou-se, desde então, em todas as línguas ocidentais, o símbolo da luta inútil, alienada ou subjetiva.
Dom Quixote pode ser visto como um exemplo de delírio ou profunda crise existencial. Ele escolhe uma realidade alternativa como meio de escapar da limitação e contingência de sua vida, criando uma “realidade” própria. Além disso, socialmente, a alienação de Dom Quixote resulta em uma série de mal-entendidos e conflitos com as pessoas ao seu redor, tornando-se, tanto objeto de zombaria quanto de pena.
Na filosofia contemporânea, o conceito de “ser” muitas vezes gira em torno da existência, identidade e realidade percebida por cada indivíduo. Muitas correntes modernas negam a realidade do “ser” e adotam uma visão mais fluida e subjetiva, enfatizando a construção social da identidade e a relatividade da verdade. Frases como “cada um tem sua verdade” e “o importante é ser feliz” são comuns em nossa sociedade. Quando se trata de questões morais, a subjetividade se torna ainda mais proeminente, com pessoas afirmando que podem ter suas próprias interpretações do que é pecado, dos sentidos dos sacramentos ou do próprio Deus, por exemplo.
Nesta era marcada por mudanças rápidas na tecnologia e na sociedade, a percepção da verdade tornou-se fragmentada para muitos indivíduos. Questões como identidade virtual, papéis sociais em constante mutação e a disseminação das fake news refletem o afastamento das noções tradicionais de identidade, realidade e verdade.
Em contraste, Santo Tomás de Aquino defendia uma compreensão do “ser” baseada em princípios metafísicos absolutos. Ele via o “ser” como algo objetivo e fundamentado na essência e existência conferidas por Deus. Santo Tomás definia a metafísica como o estudo das causas da existência nas coisas, abrangendo a natureza, propriedades, constituição material, mudanças, contingência, relações entre os seres do mundo e assim por diante.
Dom Quixote, em sua busca por aventuras cavalheirescas, vive em um estado de negação de sua própria realidade. No entanto, ele demonstra apenas a limitação humana em alterar a própria estrutura do “ser”. Da mesma forma, muitos na sociedade contemporânea buscam constantemente a autoidentificação, muitas vezes moldada por influências externas como mídias sociais, fake news, ideologias, filosofias e cultura popular. Essa busca pode levar a uma desconexão entre o “ser” e a realidade vivida. Não, à toa, constatamos a enormidade de pessoas enfermas psiquicamente por estarem fragmentadas.
A era digital, especialmente as mídias sociais, amplifica a tendência de criar personas idealizadas, semelhantes à transformação de Alonso Quijano em Dom Quixote. Essas plataformas oferecem um palco para a representação de versões alteradas do “ser”, onde a distinção entre realidade e fantasia pode se tornar turva.
Para S. Tomás, Deus é o “Ser” supremo, cuja existência e essência são inseparáveis e absolutas. Essa visão de um “Ser” fundamentado, imutável e eterno serve como um antídoto para a instabilidade e a incerteza da identidade moderna. Além disso, a afirmação de Jesus como “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6) não apenas identifica Cristo como a personificação da verdade divina, mas também estabelece uma verdade objetiva e absoluta nele e em suas palavras. Em um mundo onde os moinhos de vento podem se tornar o que o sujeito desejar, declarar que Jesus é a verdade é frequentemente mal compreendido como intolerância. Propor que a verdade não é meramente uma construção subjetiva, mas uma realidade ancorada na pessoa de Cristo é uma missão da Igreja, mesmo que muitos a vejam como um mero Sancho Pança.