O guardião do Santíssimo

Os Espírito Santo eram uma tradicional família de negros em Itu. Moradores dos baixos do largo do Carmo, de frente para a rua Floriano Peixoto, eram ligados à área da educação, destaque para o Prof. Firmino Junior, lente de História no velho “Regente Feijó”, e para sua irmã, Da. Francisca, professora no antigo grupo “Cesário Mota”. Fregueses do armazém da família de longa data, quando eu era criança, certa vez meu pai apresentou-me Firmino como tendo sido seu professor no ginásio, ao que respondi: “Nunca vi professor preto!”. A vergonha que certamente meu pai terá sentido só foi amenizada pela escandalosa gargalhada do professor que, mostrando-me a palma das mãos, disse-me: “Veja, não é inteiro preto. É branco também!”.
Católicos fervorosos, acolheram por décadas em sua casa o sexto passo da célebre procissão de passos, que sai da igreja do Carmo na Semana Santa. Era bonito ver a comoção com que recebiam o sacerdote com o Santo Lenho no altar que preparavam com tanto esmero, encimado pelo quadro de Cristo carregando a cruz – tema do passo –, que Da. Francisca sempre contava ter sido pintado pelo Prof. Pery Guarany Blackman, a pedido da família.
Entretanto, a razão destas linhas é mesmo um outro membro da família, o José Maria, popularmente conhecido como “Zeca”. Também ex-funcionário do “Regente Feijó”, onde foi servente por anos, agora passava o tempo sentado num toco de madeira na pequena varanda da casa, apreciando o movimento e empreendendo longas prosas. Eram histórias de todo tipo, que a dramatização com que contadas tornavam ainda mais interessantes. Desde o forfé que aprontou na paróquia quando percebeu que uma das joias que havia doado para a padroeira da cidade havia desaparecido do pescoço da imagem após uma limpeza, até o causo de quando ensinou o vigário a alcançar as três tonalidades do aleluia do sábado santo… A riqueza de detalhes e o modo de contar rendiam boas risadas, dele e nossas.
Mas a história mais marcante de Zeca eu presenciei.
Era um dia de Corpus Christi, lá pelo início dos anos 90, e eu levaria o turíbulo na procissão. Zeca era membro assíduo da Irmandade do Santíssimo Sacramento da Matriz da Candelária, que era quem organizava a procissão. Terminada a missa da tarde, pouco a pouco os irmãos se organizavam para pôr o cortejo na rua. Uma numerosa fila trajando terno e solenes opas cor-de-vinho e portando tocheiros nas mãos, ia deixando a sacristia e a igreja e posicionando-se de um lado e de outro do tapete colorido feito de serragem para enfeitar o percurso. Puxando a fila o irmão cruciferário e o provedor da Irmandade, este empunhando o mastro com a esfera, prerrogativa de seu cargo.
Todos passaram por mim que, como mandava o rito, devia ir imediatamente à frente do Santíssimo, junto dos coroinhas com as campainhas. Não vi Zeca. Estranho…
Veio então o sacerdote com o ostensório do Santíssimo, sob o pálio cuja condução nesse dia era gentilmente cedida aos irmãos do Santíssimo da paróquia de São Judas. E ao lado do pálio, as duas imponentes lanternas de prata, que só eram usadas nesse dia e na Semana Santa.
Continuei não vendo Zeca e fiquei preocupado, já que o havia notado antes da procissão, devidamente composto para a cerimônia. O que teria acontecido? Porém, quando a procissão já começava a subir a rua ao lado da igreja, aos primeiros acordes da banda União dos Artistas, vi que Zeca caminhava logo atrás do Santíssimo, praticamente embaixo do pálio. Embora estranhasse, tranquilizei-me e não pensei mais nisso. A procissão seguiu seu curso, parando diante das igrejas do Carmo e do Bom Jesus para as bênçãos que ali se davam e que hoje tristemente deixaram de existir. E lá estava ele, desparceirado dos demais irmãos, no encalço do padre.
Após a última bênção, nas escadarias da Matriz, e recolhida a procissão, passei por Zeca em meio ao alvoroço que se formava na sacristia da igreja. Perguntei a razão de não estar na fila da irmandade carregando o tocheiro do qual nunca abria mão. Ele então me olhou de esgueio, puxou-me pelo braço até um canto e, recuando um pouco a opa que ainda vestia, mostrou-me um revólver na cinta. Zeca, no Corpus Christi do ano anterior, teria visto na televisão a notícia de que, numa cidade lá pelos lados do Nordeste, um sujeito havia atentado contra o sacerdote que levava a custódia na procissão. Preocupado com o fato, decidiu ele mesmo estar ali para evitar que semelhante situação acontecesse em Itu.
Fiquei paralisado por alguns segundos, ao mesmo tempo que admirando a fé daquele homem, pensando no caso de algum coitado ter tropeçado durante a procissão e, por descuido, caído para os lados do pálio. Triste sorte teria.
Coisas que só em Itu acontecem…