De Lampedusa à Covid-19, o Papa e o desafio da fraternidade


“Onde está o teu irmão? A voz do seu sangue clama até Mim, diz o Senhor Deus. Essa não é uma pergunta dirigida aos outros, é uma pergunta dirigida a mim, a ti, a cada um de nós”. Já se passaram sete anos da visita do Papa Francisco a Lampedusa e daquela pergunta dirigida à humanidade na missa celebrada no campo esportivo da ilha, no coração do Mediterrâneo.
Uma viagem que durou apenas algumas horas, mas que foi de alguma forma “programática” para o Pontificado. Ali, na ponta sul da Europa, Francisco mostrou o que entende quando fala de “Igreja em saída”. Ele tornou visível a afirmação de que a realidade pode ser vista melhor a partir das periferias do que a partir do centro. Em meio aos migrantes que fugiram da guerra e da miséria, ele mostrou concretamente o seu sonho de uma “Igreja pobre e para os pobres”.
Sobre o eixo da fraternidade gira todo o Pontificado de Francisco. “Irmãos” é precisamente a primeira palavra que ele dirigiu ao mundo como Papa na noite de 13 de março de 2013. A dimensão da fraternidade está, se assim se pode dizer, no DNA deste Pontífice que escolheu o nome do Pobrezinho de Assis, um homem que queria para si, como único título, aquele de “frate”, frater, irmão precisamente.
O mundo, convencido de poder fazer sozinho, de poder ir adiante com a lógica egoísta do “sempre se fez assim”, ao invés disso se viu no chão, incrédulo e impotente diante de um inimigo invisível e esquivo. E agora luta para se levantar porque não encontra a base correta para se sustentar. Essa base, nos repete Francisco, é a fraternidade. Ali estão as únicas bases sobre as quais construir uma casa sólida para a humanidade.
O coronavírus mostrou dramaticamente que não importa quão diferentes sejam os níveis de desenvolvimento entre as nações e a renda dentro das nações, todos nós somos vulneráveis. Somos irmãos no mesmo barco, abalados pelas ondas de uma tempestade que atinge todos e a cada um indiscriminadamente. “Com a tempestade”, afirma o Papa sob a chuva de 27 de março na Praça São Pedro vazia, “caiu a maquiagem dos estereótipos com que mascaramos o nosso ‘eu’, sempre preocupado com a própria imagem; e ficou descoberto, uma vez mais, aquela (abençoada) pertença comum a que não nos podemos subtrair: a pertença como irmãos”.
Isso é o que pode despertar as nossas consciências um pouco anestesiadas diante das muitas “pandemias”, como a guerra e a fome, que bateram às nossas portas, mas que não nos curaram, porque não conseguiram entrar em casa. “Há muitas outras pandemias que fazem às pessoas morrer”, lembrou Francisco na missa na Santa Marta em 14 de maio, “e nós não nos damos conta, olhamos para o outro lado”.
Hoje, assim como há sete anos em Lampedusa, o Papa nos diz que não devemos olhar para o outro lado porque, se realmente nos sentimos irmãos, membros uns do outros, o outro lado não existe.
O outro lado somos nós.