Um milagre da espécie humana Pe Bento

Há 103 anos, justamente na data de hoje, nascia, a meia légua da cidade de Itu, no lugar hoje denominado de Ponte, o padre Bento Dias Pacheco, que deveria tornar-se, mais tarde, uma personalidade bafejada pela graça divina.
Era seu avô, Bento Dias Pacheco, um dos maiores latinistas do tempo, que nos legou belíssimas poesias latinas, segundo o juízo dos competentes.
Eram seus pais, Ignácio Dias Ferraz e Anna Antonia do Amaral, abastados agricultores e proprietários de engenhos.
Desde criança manifestou acentuada tendência para o estado sacerdotal, e, certa vez, à vista de um tremendo desastre nas proximidades da fazenda, mais se lhe aumentou essa vocação.
Feitos os primeiros estudos na sua terra, completou-os na capital, sendo habilitado para Ordens menores e Sacras, a 4 de outubro de 1843, por D. Manuel Gonçalves.
Ordenado, voltou para Itu, onde permaneceu por algum tempo, sendo depois vigário em Cabreúva; falecendo o seu venerando pai, dirigiu-se em seguida para Indaiatuba e aí se estabeleceu numa propriedade agrícola, servindo-lhe de administrador.
Nomeado vigário dessa Vila, desempenhou-se desse cargo por muitos anos; já então, o seu coração se tocara à vista dos desgraçados leprosos que perambulavam pelas estradas, de vila a vila, de cidade a cidade, numa caravana de martírio e desprezo, intervala pelos pousos a borda dos caminhos, em tendas, onde expunham o seu corpo apostemado.
Pela morte de sua mãe, desembaraçou-se de todos os haveres que herdara, doando-os e repartindo-os às instituições de caridade e aos pobres; vendeu a sua fazenda de Indaiatuba, atendendo às palavras do Galileu – Reparte tudo que tens aos pobres – demandou com a sublime decisão dos predestinados, o hospital da cidade de Itu que fora fundado pelo seu tio, o benemérito leprosófilo padre Antonio Pacheco e Silva, em 1806.
Para entregar-se inteiramente ao apostolado de sua incomparável caridade, adquiriu, com o último dinheiro que havia conservado propositalmente, uma chácara fronteiriça ao hospital, na qual se fez agricultor e santo.
Aí chegou, mais ou menos, por 1866.
Pratica, então prodígios. Providencia para que o hospital se torne o centro de amparo de todos os morféticos, como é o seu desejo, e para isso organiza todas as acomodações necessárias. A sua obra toma proporções ciclópicas. Coadjuva-o nesse trabalho extraordinário um herói obscuro, o preto Salvador do Padre Bento.
É o anjo tutelar; consola o morfético moribundo à borda do leito, exalta-o nos momentos de dor, conforta-o, anima-o quando nos gestos de rebeldia não se conforma com o isolamento a que é condenado, pensa as chagas cancerosas, pratica a ablução das mazelas, banha a extrema-unção no leproso agonizante; abre as sepulturas, ajuda a enterrar com as próprias mãos o cadáver decomposto pela lepra; purifica quotidianamente os “seus melhores amigos” com o sacrifício da missa e a comunhão.
Fosse pela calada da noite naquele recanto solitário da cidade de Itu, fosse pelo abrir do dia quando o lázaro suspirasse um gemido cavernoso de sofrimento, lá estava padre Bento Dias Pacheco ao seu lado, espargindo-lhes consolação à alma e ao corpo.
De sol a sol, de estação a estação, pelo espaço de quase meio século, a fronte do morfético foi contemplada com o ósculo purificado de Bento Dias Pacheco.
Esse homem, que assombrou o coração humano, parecia ser nimbado pela aureola da proteção divina, falecendo aos noventa e três anos de idade, em 6 de março de 1819, sem uma mácula de mau caráter no corpo!
Esse homem que reproduzia com os morféticos, em cada aniversário natalício seu, o quadro da Santa Ceia, foi o êmulo do Nazareno, e não foi menor, em grandeza de alma, do que São Francisco de Assis e São Vicente de Paulo.
A sua casa era o sacrário intangível da pobreza e o templo sagrado da dor. Quanto mendigo protegido! Para ali convergiam, da Ave-Maria, os doentes que iam buscar lenitivo à solidão em redor do seu protetor à soleira da porta…
Outro exemplo de rara abnegação está no famoso padre José Neuster Van Damien sobre o qual há obras escritas em diversas línguas.
Nasceu o padre Van Damien em Tremelo, na Bélgica, no ano de 1840, e faleceu na ilha de Molokai, Oceania, em 1887.
Completados os estudos de teologia na Universidade de Louvain, praticou os atos comuns de missionário até 1873.
Ouvindo, um dia, o reitor de sua ordem queixar-se do abandono em que estavam os lázaros do Molokai, ofereceu-se para lhes servir de capelão. E pelo ano de 1873, abalou-se da Bélgica, para levar às regiões longínquas do Hawai, o consolo e o conforto à alma e ao corpo. Entrando para o leprosário de Molokai, aí permaneceu por espaço de quatorze anos, prestando relevantíssimos serviços. Quando aí chegou, triste espetáculo se lhe apresentou. Os leprosos, maltrapilhos, dormiam em grande parte, ao relento, amontoavam-se em míseras cabanas esburacadas, falta-lhes alimentação, faltavam-lhes a assistência, o auxílio e o socorro. Disseminados em aldeias, os doentes, sem conforto algum, jaziam completamente desamparados. O padre Van Damien arranjou-lhes bom alimento, concorreu materialmente para a construção de casa, abriu sepulturas e centenas de leprosos foram enterrados por suas próprias mãos. Mas em 1884, pela insensibilidade da pele, percebeu que estava acabado pela morfeia; a morte serpeava-lhe as veias, e, em 1887 falecia o padre Van Damien, cuja vida foi toda um “tecido de ouro”. A Humanidade, reconhecida, tributou-lhe homenagens.
Comparando-se as duas individualidades, distinguimos num repente, as diferenças que as caracterizam.
O herói belga teve o auxílio de sua pátria, o herói ituano não teve o auxílio de ninguém.
O sacerdote de Itu não tinha ao seu alcance todos os meios necessários; o sacerdote de Tremelo tinha o seu hospital dotado de todas as acomodações.
A linha característica, porém, que mais difere os dois heróis é o ambiente em que praticavam.
A Bélgica toda estava a par da missão do Van Damien.
Padre Bento cumpria os atos de missionário protetor dos morféticos como obrigação natural, completamente solado, segregado, retirado, enfim, de qualquer relação mundana.
Nunca quis que, o que fizesse para os doentes, se dilatasse para fora do hospital. E quantas vezes as suas mãos transmitiram aos leprosos presentes que lhes davam. A sua casa era a caixa de esmolas do hospital. Fossem grandes quantias, fossem custosos petiscos, tudo escoava o padre Bento para os lázaros.
Outro traço singular de sua personalidade era o seu inteiro e singular desprendimento por tudo.
Só guardava uma ideia de finalidade: – era a de praticar às mãos-cheias a Caridade, para viver em “contínua harmonia” com Deus, que é o “caráter da verdadeira religião.”
Conhecessem – Chateaubriand (e todos os teólogos), que lhes dedicariam o capítulo – A Caridade – como o anúncio dessa virtude cristã.
“O gênio do cristianismo” ficou incompleto…
Padre Bento foi “o poço da abundância no deserto da vida” do leproso.
A meio quilômetro da cidade de Itu conviveu esse varão extraordinário, o maior dos ituanos, no meio dos morféticos, ouvindo as suas queixas doridas, servindo-lhes de enfermeiro, criado, protetor, enquanto dominavam as trevas solitárias da noite…
Um caso que o padre Bento relatava aos seus poucos íntimos, com o mais acentuado tom de simplicidade, basta para pôr em síntese a sua missão de leprosófilo.
Certa vez, montado a cavalo, vinha de uma fazenda, por nome Serra Negra, pela estrada de Piracicaba, um preto leproso chamado Diviciaço de tal, atraído pela fama de que padre Bento era o patrono dos lázaros. A uma certa distância do hospital, porém, o cavaleiro, pela longa caminhada, tomba exausto e congestionado pelo sol ardente do verão… Alguns dos transeuntes que presenciaram aquela cena dolorida foram comunicar ao padre Bento, o que acabava de ser dado.
Acolhendo aquelas palavras comunicativas com o olhar absorto, indiferente, prontamente se dirigiu para o lugar indicado.
Ao dar de frente com o morfético estendido ao leito da estrada, corpo inteiramente deformado por emissões cancerosas, esbatidas numa mistura de pó e coloração arroxeada, que exalavam um miasma pestífero, devido ao grau avançado do mal, afigurou-se-lhe, num relance, à sua contemplação de bafejado pela graça divina, que aquelas chagas eram outras tantas flores. E o quadro do Bom Samaritano, então, foi reproduzido com maior perspectiva…
O abnegado capelão toma, pelos braços, o infeliz e, num esforço além dos limites, com o auxílio de alguém, que se sentiu extasiado por aquele rasgo de heroísmo, dando-lhe coragem e desprendimento, monta a cavalo, e segue, com o lázaro em seu colo, placidamente, até o hospital, onde teve guarida ainda por muito tempo.
E dessas emanações fulgurantes de Deus, o padre Bento as recebeu por quase cinquenta anos!
E dele bem disse o dr. Lourenço Magalhães:
“… é deles o capelão, o confessor, o companheiro, o conforto, a consolação, o anjo tutelar. Nunca em minha vida tive tanta veneração, senti o espírito tão edificado como na presença desse homem simples, humilde admirável! A ele comparados como são íntimos os maiores da terra!
Foi ali que pude avaliar que não há grandeza como a da virtude, a da verdadeira caridade cristã.
– Quando lhe afloraram, ao rosto os primeiros sulcos de uma velhice tardia, padre Bento sentiu esvaírem-se-lhe as forças, vindo completar a extrema decrepitude uma cegueira absoluta, e então se lamentava com os olhos marejados de lágrimas de não mais poder servir eficientemente aos morféticos.
Aquela “ruína gloriosa” da Humanidade, sentindo aproximar-se o fim, recomendava aos amigos que não comunicassem a ninguém a sua morte, e o sepultassem envolto apenas num lençol escuro, no cemitério do hospital, os próprios morféticos de quem fora o melhor companheiro.
Não foi assim. Era por demais.
Na tarde do dia 6 de março de 1911, quando, no ocidente o sol dardejava os últimos raios esmaecidos, como que de luto, serrava para sempre, as pálpebras aquele varão sublime, a perfeição máxima da “filha de Jesus Cristo” – a Caridade.
Àquele casarão solitário afluiu, logo, grande massa de povo, o caixão mortuário, para a igreja matriz, onde esteve exposto até a manhã do dia seguinte.
Após a missa, com o corpo presente, a população de Itu, em peso, a alma trespassada pela dor, acompanhou, à última morada, o santo morto. Chegando ao portão do hospital foi feita a última vontade do morto: os doentes receberam o ataúde, conduzindo-o ao cemitério, onde foi dado à sepultura, bem no meio dos que foram os seus melhores amigos.
E hoje, ao lado da capela do Senhor no Horto, à qual tudo dedicara, dorme o sono eterno do herói incomparável, padre Bento Dias Pacheco que, na terra, foi a expressão mais eloquente do heroísmo e da virtude…
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Símbolo de uma Religião, personificação da Caridade e da Fé, repousais gigante, agora, na mansão dos justos, “lá no seio de Deus”.
Enxugastes o pranto do leproso. Sois “amigo espírito” o consolo inefável das amarguras daqueles que veem em vossa imagem o anjo da suprema bondade.
Exaltastes a “fronte humilhada do morfético”! Sois o raio luminoso que vem aquecer, aqui na terra, os corações que sofrem o martírio e o desprezo.
Consolastes o lázaro moribundo! Sois o alento constante daqueles que procuram em vosso culto a evocação de uma alma protetora!
Ave padre Bento!
Ermelindo Maffei
Itu, setembro, 1927
Publicado originalmente no jornal O Estado de São Paulo, em 17 de setembro de 1927.
Transcrição – Biblioteca Histórica da Igreja do Bom Jesus