Heroísmo nas epidemias (2)
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Sem pensar nas necessárias precauções, batem todos os recantos em busca do pão do sacrifício, numa ânsia incontida de imolação. Numa dessas incursões pelos arredores, descobrem um tugúrio abandonado, onde uma velha, roída por terrível úlcera, jaz, em trapos, coberta de bichos. As duas religiosas, “fazendo das tripas coração”, num instante limpam e desinfetam a choça, lavam e curam as feridas da anciã. Não percebem que retardam sua volta à casa. Em seu regresso encontram o Padre Fasi apreensivo, com ares de zangado, e até mesmo ameaçando denunciá-las à superiora.
Causa da ameaça? Excesso de heroísmo tão somente… O Padre finge apenas, pois, no íntimo, aplaude com a mais viva emoção o gesto incomparavelmente valoroso. Apressa-se em cumprimentar Madre Felicidade, pela renúncia generosa que inunda o coração das duas filhas.
Declina a epidemia. Voltam as heroínas para o doce ninho materno. Madre Geral exulta ao ver que nenhuma de suas ovelhinhas foi atacada pela cólera. Cumpre a sua promessa: decreta dia santo de preceito, em todas as casas da Congregação, a festa do Coração de Jesus. Aquele que lhes servira de abrigo seguro, na hora da tempestade, bem merece as homenagens de gratidão ao voltar a bonança…
Madre Teodora, vencedora do batismo de fogo, continua, porém, seus combates. “O segredo do adiantamento rápido de alguém no amor de Deus é a generosidade de seu amor para com o próximo.”
E por isso, em seus primórdios de Brasil, toma como tarefa visitar os doentes em suas casas, e aí, com grande amor e carinho, despede-se de suas prerrogativas de Superiora da Congregação de São José, e desce até o pobre, para lavar e curar as chagas que lhe minam o organismo.
Nada a amedronta, nem mesmo o perigo do contágio. Durante muito tempo trata de um leproso, e com seu espírito de fé profunda, através das chagas asquerosas do miserável, acarinha as chagas preciosas de um Deus redentor!…
Ao curá-lo, sente vir de longe uma voz terna e melodiosa, que, no beijo eucarístico de cada dia, sussurra-lhe convincente: “Ama-o, filha, porque Eu o amo, e se não amas a este irmão que vês, como poderás amar a Mim, que não vês?!…”
Segredo incompreensível, revelação só concedida aos eleitos…

18 de maio de 1957