Altair José  Estrada Junior – Pra que existe o homem?
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Um dos maiores embaraços de consciência por que passei aconteceu num treinamento promovido por uma empresa em que trabalhei. Indagados pelo orientador sobre “por que existimos”, cada um dos participantes foi, um após o outro, respondendo a seu modo, porém invariavelmente segundo aquela visão por assim dizer poética de que existimos “para fazer o bem”, “para amar o próximo”, “para ajudar a construir um mundo melhor” etc.
O ambiente nas grandes empresas, de um bom tempo pra cá, embora possa até ser prazeroso e cordial, é absolutamente desprovido de qualquer religiosidade. Fala-se em integridade, senso de colaboração, respeito aos pares, empatia – a palavra da moda, mas tudo isso desprovido de uma conotação cristã, como se esses conceitos se sustentassem sem a religião. Até mesmo a palavra “próximo” é muito utilizada nos meios empresariais, ignorando-se o fato de que seu conceito é evangélico e não se pode entendê-la fora da dimensão da fraternidade cristã. Deus – e seus símbolos – foram praticamente banidos desses ambientes sob o argumento de diversidade de opiniões e de “respeito” a quem não O reconhece.
Foi assim que eu, já acostumado a um ambiente no qual Deus e a Fé eram assuntos de certa forma proibidos a nível institucional, também embarquei nessa de responder de forma vaga como entendia a essência do meu existir. Não me lembro exatamente de quais palavras utilizei para responder à provocação, mas sei que foi algo na linha dos demais, de que existia para ser bom e para fazer bom o mundo.
Foi então que, após todos externarem suas respostas, o instrutor, protestante, disse com firmeza ao grupo que tudo que havia respondido estava correto, mas que, muito acima de cada resposta dada, cada um de nós existia “para conhecer, amar e servir a Deus”!
Aquela resposta caiu-me como uma bigorna sobre a cabeça. Eu era líder de associações religiosas, catequista, sabia disso de cor e salteado e o ensinava em minhas reuniões, palestras e encontros. Mas ali, naquele ambiente e perante meus colegas de trabalho, sequer me passou pela cabeça respondê-lo dessa forma…
Aquela experiência arcou-me de tal maneira que um simples conceito aprendido no catecismo passou a ser objeto de contínua reflexão de vida. E de contínuo empenho a que daquela verdade existencial tão importante se conscientizassem também as demais pessoas: “O próprio Deus, ao criar o homem à própria imagem, inscreveu no coração dele o desejo de O vê-lo. Ainda que esse desejo seja com frequência ignorado, Deus não cessa de atrair o homem a si, para que viva e encontre nele aquela plenitude de verdade e de felicidade que procura sem descanso. Por natureza e por vocação o homem é, portanto, um ser religioso, capaz de entrar em comunhão com Deus. Essa íntima e vital ligação com Deus confere ao homem a sua fundamental dignidade” (Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, Capítulo I, número 2).
Movido pelas filosofias e ideologias anticristãs e anticlericais, o homem de hoje, mais do que nunca, tenta construir uma sociedade totalmente dissociada da Fé num Deus Criador e Mantenedor do mundo. Continuando a ressoar nos ouvidos as palavras da serpente a nossos primeiros pais – “sereis como deuses”, o homem moderno segue seu rumo, cada vez mais obstinado à autossuficiência e ao ilusório conhecimento “do bem e do mal” (Gênesis 3,5), enquanto ignora valores, princípios e permanece perdido, tenteando em busca sabe-se lá de quê.
Quanto mais o homem e a sociedade moderna se fecham ao conhecimento, ao amor e ao serviço de Deus, mais vagará pelo escuro, num vazio existencial que somente Deus é capaz de preencher.
Que possamos refletir constantemente nessa grande e sublime verdade de nossa Fé, exclamando com Santo Agostinho (Confissões 1,1,1): “Vós sois grande, Senhor, e altamente digno de louvor: grande é o vosso poder e a vossa sabedoria não tem medida. E o homem, pequena parcela da vossa criação, pretende louvar-vos – precisamente o homem que, revestido da sua condição mortal, traz em si o testemunho de seu pecado e de que resistis aos soberbos. A despeito de tudo, o homem, pequena parcela da vossa criação, quer louvar-vos. Vós mesmo o incitais a isto, fazendo com que ele encontre suas delícias no vosso louvor, porque nos fizestes para vós e o nosso coração não descansa enquanto não repousar em vós”.

 

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