Três venenos para a caminhada na santidade
por Dom Vicente Costa
Bispo Diocesano de Jundiaí
“Acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou me olhas mal porque estou sendo bom?” (Mt 20,15).
Caríssimos leitores e leitoras: a parábola dos trabalhadores da vinha (cf. Mt 20,1-16), sobre a qual refletiremos na leitura do Evangelho do próximo domingo (25º Domingo do Tempo Comum – Ano A), exprime uma realidade da vida e revela três venenos para a nossa caminhada na santidade, sobre os quais precisamos estar atentos.
O primeiro veneno é o da ambição. Não qualquer uma, mas aquela sem limites. Até certo ponto é natural que as pessoas tenham alguma ambição na vida. Estudar e graduar-se; ter um emprego e subir na carreira profissional; casar-se e constituir família; assegurar um futuro melhor para si e para a família: são ambições comuns, e isso é muito melhor que simplesmente não pensar num projeto de vida.
Mas a ambição desmedida tira o ser humano de centro. Na parábola que Jesus nos conta, os primeiros trabalhadores contratados vieram “pensando que receberiam mais” (Mt 20,10). Significa que se deixaram levar pela ganância. Quando receberam o combinado, não ficaram satisfeitos, tornaram-se ingratos e começaram a murmurar.
Ainda cardeal, o Papa Francisco já afirmava: “A ambição é uma atitude do mundanismo espiritual que é o pior pecado da Igreja” (entrevista ao jornal italiano La Stampa, fevereiro de 2012). Essas palavras nos recordam que não devemos instrumentalizar a fé para saciar nossas ambições pessoais. A maior e mais justa ambição de cada cristão e cristã deve ser viver santamente nesta vida, cumprir bem a missão nesta terra e estar na comunhão com Deus na vida que não tem fim.
O segundo veneno é o da murmuração, como já se aludiu antes. Murmurar é reclamar, é transformar tudo em falatório negativo, baseado na má vontade. O murmurador é um insatisfeito e não consegue enxergar nada de bom além de suas próprias qualidades. Infelizmente há quem murmure contra tudo e contra todos, inclusive contra Deus.
Frustrados em sua ambição desmedida, os trabalhadores contratados de imediato começaram a murmurar, porque insatisfeitos, não aceitavam o mesmo salário recebido pelos trabalhadores contratados por último. “Ao receberem o pagamento, começaram a murmurar contra o proprietário: ‘Esses últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o peso do dia e o calor intenso’” (Mt 20,11-12). Os murmuradores sempre encontram um meio para justificar suas ambições e se queixar dos outros.
“Este pecado da murmuração é cotidiano, tanto nas coisas pequenas quanto nas grandes”, afirma o Papa Francisco. “Sim, também na própria vida, quantas vezes murmuramos porque não gostamos disso e daquilo. E deste modo, ao invés de dialogar ou procurar resolver uma situação conflituosa, murmuramos às escondidas, sempre em voz baixa, pois não temos a coragem de falar claramente… Quanto se murmura nas paróquias sobre muitas questões! (…) É suficiente um testemunho que não seja do meu agrado ou uma pessoa da qual não gosto para desencadear imediatamente a murmuração” (Homilia na Santa Missa na Capela da Casa Santa Marta em 8 de novembro de 2018).
O terceiro veneno é o da inveja. Trata-se da incapacidade de alegrar-se com o que há de bom na vida dos irmãos e irmãs. Tem-se inveja do outro porque tem uma bela casa, um bom emprego, uma família bem constituída, êxito na vida…
Diz o Papa Francisco: “Que coisa feia é a inveja! É uma atitude, um pecado feio. E no coração, o ciúme ou a inveja crescem como a erva daninha: cresce, mas não deixa a erva boa crescer. Tudo o que pensa que pode ofuscá-lo, faz-lhe mal. Não está em paz! É um coração atordoado, é um coração feio! Mas também o coração invejoso leva a matar, à morte. E a Escritura diz isto claramente: por inveja do diabo, a morte entrou no mundo” (Homilia na Santa Missa na Capela Casa Santa Marta ¬ 21 de janeiro de 2020).
Caríssimos leitores e leitoras: o antídoto contra esses venenos é a nossa profunda comunhão com Jesus na Eucaristia, o sacramento da unidade, na oração, na leitura da Bíblia Sagrada e na prática da caridade. Sejamos capazes de nos livrar destes três venenos que podem abrigar-se em nosso coração.
E a todos abençoo.
Dom Vicente Costa
Bispo Diocesano de Jundiaí