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Por Papa Francisco

O Evangelho nos apresenta o prodígio da multiplicação dos pães Mt 14, 13-21. A cena acontece num lugar deserto, onde Jesus tinha se retirado com os seus discípulos. Mas as pessoas vão procuram-no para o ouvir e ser curadas: de fato as suas palavras e gestos curam e dão esperança. Ao pôr do sol, as multidões ainda lá estão, e os discípulos, homens práticos, convidam Jesus a despedi-las para que possam ir buscar comida. Mas Ele responde: «Dai-lhes vós de comer» (v. 16). Imaginemos os rostos dos discípulos! Jesus sabe muito bem o que está prestes a fazer, mas quer mudar a atitude deles: não diz “despedi-os, que se desenrasquem, que encontrem sozinhos de comer”, não, mas “o que nos oferece a Providência para partilhar? Duas atitudes contrárias. E Jesus quer levá-los à segunda atitude, porque a primeira proposta é a de um homem prático, mas não é generosa: “despedi-os, deixai que vão, que se arranjem”. Jesus pensa de outra forma. Jesus, através desta situação, quer educar os seus amigos de ontem e de hoje na lógica de Deus. E qual é a lógica de Deus que vemos aqui? A lógica de cuidar do próximo. A lógica de não lavar as mãos, a lógica de não olhar para o outro lado. A lógica de cuidar do outro. “Que se arranjem” não faz parte do vocabulário cristão.
Assim que um dos Doze diz, com realismo: «Mas não temos aqui senão cinco pães e dois peixes», Jesus responde: «Trazei-mos cá». (vv. 17-18). Toma essa comida nas suas mãos, levanta os olhos ao céu, recita a bênção e começa a partir e dá as porções aos discípulos para distribuir. E esses pães e peixes não se esgotam, são suficientes para satisfazer milhares de pessoas.
Com este gesto Jesus manifesta o seu poder, não de uma forma espetacular, mas como um sinal da caridade, da generosidade de Deus Pai para com os seus filhos cansados e oprimidos. Está imerso na vida do seu povo, compreende o seu cansaço, compreende os seus limites, mas não deixa que ninguém se perca ou desfaleça: alimenta com a sua Palavra e dá comida abundante para o sustento.
Nesta narração evangélica percebe-se também a referência à Eucaristia, especialmente quando descreve a bênção, o partir do pão, a entrega aos discípulos, a distribuição ao povo (v. 19). E deve se notar quão estreita é a ligação entre o pão eucarístico, alimento para a vida eterna, e o pão quotidiano, necessário para a vida terrena. Antes de se oferecer ao Pai como Pão de salvação, Jesus se ocupa da comida para aqueles que O seguem e que, para estar com Ele, se esqueceram de tomar providências. Por vezes o espírito e a matéria estão em contraste, mas na realidade o espiritualismo, tal como o materialismo, é alheio à Bíblia. Não é uma linguagem da Bíblia.
A compaixão, a ternura que Jesus mostrou para com as multidões não é sentimentalismo, mas a manifestação concreta do amor que cuida das necessidades das pessoas. E somos chamados a nos aproximar da mesa eucarística com estas mesmas atitudes de Jesus: [antes de tudo] compaixão pelas necessidades dos outros. Esta palavra é repetida no Evangelho quando Jesus vê um problema, uma doença ou aquelas pessoas sem comida. “Compadeceu-se delas”. A compaixão não é um sentimento puramente material; a verdadeira compaixão é sofrer com, assumir as dores dos outros. Talvez hoje nos faça bem perguntar a nós mesmos: sinto compaixão? Quando leio as notícias sobre guerras, fome, pandemias, tantas coisas, será que sinto compaixão por essas pessoas? Será que tenho pena das pessoas que estão próximas de mim? Sou capaz de sofrer com elas, ou olho para o outro lado ou digo “que se arranjem”? Não esquecer esta palavra “compaixão”, que é confiança no amor providente do Pai e significa partilha corajosa.
Que Maria Santíssima nos ajude a percorrer o caminho que o Senhor nos mostra no Evangelho de hoje. É o caminho da fraternidade, que é essencial para enfrentar a pobreza e o sofrimento deste mundo, especialmente neste momento grave, e que nos projeta para além do próprio mundo, porque é um caminho que começa com Deus e regressa a Deus.

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