Audiência Geral do Papa João Paulo I, realizada em 20 de Setembro de 1978.


O Papa João, numa sua nota, que também foi impressa, disse: “Desta vez fiz o retiro sobre as sete lâmpadas da santificação”. Sete virtudes, queria dizer: fé, esperança, caridade, prudência, justiça, fortaleza e temperança. Esperemos que o Espírito Santo ajude hoje o pobre Papa a explicar ao menos uma destas lâmpadas, a primeira: a fé. Aqui em Roma houve um poeta, Trilussa, que procurou também falar da fé. Numa poesia disse: “Aquela velhinha cega, que encontrei / na tarde em que me perdi no meio do bosque, / disse-me: — se o caminho não o sabes / vou acompanhar-te eu, que o conheço. / Se tens a força de vir atrás de mim / de vez em quando te chamarei, até lá ao fundo, onde há um cipreste, / até lá acima, onde há uma cruz. Eu respondi: Assim será… mas acho esquisito / que me possa guiar quem não vê… / A cega, então, pegou-me na mão / e suspirou: — Caminha. — Era a fé”. Como poesia, é graciosa. Como teologia, defeituosa. Defeituosa porque, ao tratar-se de fé, o grande condutor é Deus. Não disse Jesus?: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, não o atrair”. São Paulo não tinha a fé, perseguia mesmo os fiéis. Deus espera-o na estrada de Damasco: “Paulo — diz-lhe — não penses sequer em empinar-te, em dar patadas como cavalo desenfreado.
Eu sou aquele Jesus que tu persegues. Tenho desígnios sobre ti. É necessário que tu mudes!”. Rendeu-se Paulo; mudou transformando completamente a própria vida. Passados alguns anos, escreverá aos Filipenses: “Daquela vez, na estrada de Damasco, Deus apanhou-me; desde então não faço senão correr atrás d’Ele para ver se dalgum modo O poderei alcançar, imitando-O e amando-O cada vez mais”. Eis o que é a fé: entregarmo-nos a Deus, mas transformando a própria vida. Isto nem sempre é fácil. Agostinho contou a viagem da sua fé; especialmente nas últimas semanas, foi terrível; lendo-o, vemos que a sua alma sentia calafrios e se retorcia em conflitos interiores. Dum lado, Deus que o chama e insiste; do outro, os antigos hábitos, “ ‘velhos amigos’ — escreve ele —; puxavam-me amavelmente pelo meu vestido de carne e diziam-me: ‘Agostinho, que fazes? deixas-nos sozinhos? Olha que tu não poderás tornar a fazer isto, não poderás tornar a fazer aquilo, assim para sempre!’ “. Difícil! Encontrava-me diz — no estado duma pessoa que está na cama, de manhã, Dizem-lhe: ‘Fora, Agostinho, levanta-te!’. Eu replicava: ‘Sim, mais tarde, mais um bocadinho na cama!’. Finalmente o Senhor deu-me um puxão e levantei-me. É preciso não dizermos Sim, mas…; sim, mas mais tarde. E preciso dizer: Senhor, sim! Imediatamente. Tal é a fé: responder com generosidade ao Senhor. Mas quem é que diz este sim? Quem é humilde e confia em Deus completamente! “.
Difícil é também aceitar algumas verdades, porque as verdades da fé são de duas espécies: algumas agradáveis, outras desagradáveis ao nosso espírito. Por exemplo, é agradável ouvir dizer que Deus tem por nós tanta ternura, maior ainda que a duma mãe pelos seus filhos, como afirma Isaías. Como é agradável e nos parece natural! Houve um grande Bispo francês, Dupanloup, que aos reitores dos seminários costumava dizer: Com os futuros sacerdotes, sede pais, sede mães. É agradável.
Diante doutras verdades, pelo contrário, há dificuldades. Deus tem de castigar, precisamente se eu Lhe resisto. Ele corre atrás de mim, suplica-me que me converta e eu digo: Não. Quase sou eu que o obrigo a castigar-me. Isto não é agradável, mas é verdade de fé.
E há uma última dificuldade: a Igreja. São Paulo perguntou: — Quem és, Senhor? — Sou aquele Jesus que tu persegues. Uma luz, um relâmpago, atravessou a sua mente. Eu não persigo Jesus, nem sequer o conheço: quem persigo são os cristãos. Vê-se que Jesus e os cristãos, Jesus e a Igreja, são a mesma coisa: coisa inscindível, inseparável.
Lede São Paulo: “O corpo de Cristo que é a Igreja”. Cristo e a Igreja são uma só coisa. Cristo é a Cabeça, nós, Igreja, somos os seus membros. Não é possível ter fé e dizer: eu creio em Jesus, aceito Jesus mas não aceito a Igreja. É preciso aceitar a Igreja, como ela é. E como é esta Igreja? O Papa João chamou-lhe “Mãe e Mestra”. Também Mestra. São Paulo disse: “Considerem-nos todos como ministros de Cristo e administradores dos mistérios de Deus”.
Quando o pobre Papa, quando os Bispos e os Sacerdotes propõem a doutrina, não fazem senão ajudar Cristo. Não é doutrina nossa, é a de Cristo; devemos só conservá-la e propô-la. Eu estava presente quando o Papa João abriu o Concilio a 11 de Outubro de 1962. A certa altura disse: Esperamos que, devido ao Concílio, a Igreja dê um salto para diante. Todos o esperámos; mas salto para a frente, para qual estrada? Explicou-o logo a seguir: sobre as verdades certas e imutáveis. Não pensou sequer que fossem as verdades a caminhar, a andar para a frente, e depois pouco a pouco a ir mudando. As verdades são aquelas determinadas; nós devemos andar pela estrada dessas verdades — compreendendo-as embora cada vez mais, actualizando-nos, propondo-as de forma que se adapte aos novos tempos. O mesmo pensava também o Papa Paulo. A primeira coisa que fiz, apenas eleito Papa, foi entrar na Capela particular da Casa Pontifícia; lá, no fundo, o Papa Paulo VI mandou colocar dois mosaicos: São Pedro e São Paulo; São Pedro que morre e São Paulo que morre. Mas por baixo da imagem de São Pedro há as palavras de Jesus: Pedirei por ti, Pedro, para que não desfaleça a tua fé. E por baixo da de São Paulo, que morre à espada: Terminei a minha corrida, conservei a fé. Sabeis que, no último discurso, de 29 de Junho, Paulo VI disse: Depois de 15 anos de pontificado, posso agradecer ao Senhor: defendi, conservei a fé.
A Igreja é também mãe. Se é continuadora de Cristo e Cristo é bom, também a Igreja tem de ser boa; boa para todos. Mas se, por acaso, alguma vez houvesse na Igreja maus? Contemos ainda com ela, com a mãe. Se a mãezinha está doente, se a minha mãe por acaso viesse a ficar coxa, eu ainda a amaria bem mais. O mesmo, na Igreja: se há, e é verdade que há, defeitos e faltas, não há-de desaparecer nunca o nosso afeto para com a Igreja. Cada um de nós, toda a Igreja, poderia rezar a oração que eu costumo rezar: Senhor, aceita-me como sou, com os meus defeitos, com as minhas faltas, mas faz que me torne como tu desejas.