Monumentos
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Importante polêmica se instalou no hemisfério norte sobre certos monumentos em praça pública, de indigesta presença. O movimento mostra interesse pelo revisionismo histórico sobre personagens homenageados cuja biografia revela o enriquecimento com o negócio vergonhoso do tráfico internacional de pessoas escravizadas da África para a América.
Sabe-se que esse movimento é reação à agressividade de policiais, nos Estados Unidos, ao imobilizar o sr. George Floyd, asfixiando-o e levando-o à morte. Dois aspectos a considerar no ato violento: Floyd era negro e se talvez não fosse, a maneira de tratá-lo seria outra; a reação em massa, sobretudo nos Estados Unidos e na Inglaterra visa eliminar o racismo ainda tão presente no mundo.
O assunto é fundamental e merece total atenção. Ao escrever para católicos, neste jornal, lembro o alto grau de compromisso do Cristianismo com a construção de uma consciência de igualdade entre todos, afinal é também um preceito evangélico. O discurso, porém é fácil, mas a prática demanda uma mudança de postura interior.
Itu, até o séc. XIX contou com enorme quantidade de escravos trabalhando na lavoura ou na cidade. Seus descendentes foram e ainda são vítimas do preconceito seja à ascensão social ou na vida cotidiana. E só quem já sofreu com essa realidade pode relatar o horror da discriminação. É preciso fazer um exercício de alteridade para sentir a gravidade do racismo presente nas pequenas ações do cotidiano. Muitas vezes não as percebemos porque parecem “inofensivas” aos olhos dos outros, “só uma brincadeira!”. Mas acabam revelando um desrespeito enraizado em nossa cultura que se mantém vivo porque permitimos.
O preconceito nasce em casa: os jovens reproduzem o que ouvem dos mais velhos. O tempo passa, a cultura se transforma e é preciso superar o racismo. Não combina dizer que é cristão ou cidadão consciente e ter medo de um jovem na rua porque ele é negro. A luta pela igualdade entre as pessoas deve estar na agenda do Estado e de instituições como a Igreja. A escola precisa trazer abordagens contundentes sobre o tema para transformar a maneira de pensar das próximas gerações. Ninguém mudará a postura se não for estimulado a pensar diferente.
Quanto aos monumentos, discute-se a retirada de homenagens aos bandeirantes em praça pública. Pessoalmente sou contra. As estátuas têm sua temporalidade, muitas são obras de arte, frutos da época em que foram agregadas ao cenário urbano. Cabe aos cidadãos de hoje estabelecer juízo sobre o papel dos heróis em suas vidas.
Importante considerar que derrubar monumentos não reduz o preconceito presente na falta de consciência.
Deve-se agregar à História a contribuição dos africanos e seus descendentes à formação cultural, econômica e política do Brasil. Muitos dos monumentos que temos em Itu, como as igrejas, foram erguidos por engenho e arte de africanos e seus descendentes enquanto escravos.
Pesquisas devem ampliar o material disponível aos professores, para abordar a temática e valorizar a cultura afro-brasileira em Itu. Isto é fundamental para o fim da violência, da injustiça e do preconceito.

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