Meiguice por excelência
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por Bernardo Campos

Mariana, o nome da garota, de presumíveis sete anos, cuidadosa, esperou que o sinal se abrisse, naquela esquina de avenida com movimento acentuado. Assim aprendera dos pais até antes de frequência à escola.
Um veículo vinha naquela direção, mas ainda bem distante da faixa de pedestres.
E não é que Mariana tropeça e cai de joelhos, mas sem ir com o rosto ao solo, porque instintivamente apoiara-se com as duas mãos. Deve ser do conhecimento de todos de que, em quedas desse feitio, o repente atordoa a pessoa, mas quase nunca a ponto de se ficar fora de si.
Houve tempo, dessa feita, daquele motorista que já se aproximava, sair às pressas do veículo e, cuidadosamente, ajudar a menina a se erguer e se recobrar. O mesmo cidadão foi até o seu carro e explicou à esposa que podia ir para a casa, pois percebia que o susto da menor não fora pouco e talvez precisasse de ajuda.
Após erguer a menina certificou-se de seu endereço, a cinco quadras dali.

  • Eu a levo para casa.
  • Obrigado. Não é preciso. Moro logo ali.
    Ele se fez de desentendido e com a mão delicadamente apoiada no ombro da menor, enquanto caminhavam até sem pressa, soube lhe fazer perguntas com que pudesse conhecê-la melhor.
    Inteirou-se de se tratar do fato de ser ela de família carente, o que nele mais ainda despertou curiosidade, para outros detalhes.
    Mariana, em verdade, filha única de um casal pobre, mas daqueles que pela sobriedade e princípios, perfazem o quase milagre de manter um modo de vida sóbrio, humilde e decente por excelência. Ele pintor de paredes, a mãe diarista, em residência tão distante, a ponto de precisar servir-se de duas conduções para ser alcançado. E bem por isso a pergunta natural:
  • E você, onde fica quando sua mãe sai?
  • Em casa, claro.
  • Não come, não bebe, não estuda?
  • Oh! Estudo sim, na parte da manhã. O almoço, mamãe deixa pronto, antes de ir para o trabalho; é só esquentar. Já papai, que trabalha em toda parte, muitas vezes só o vejo quando volta, à noitinha.
    Foi o tempo suficiente para o atencioso desconhecido se aperceber de tudo, mas principalmente da simpatia e espontaneidade daquela criança. Por sinal que, seja dito, além de linda, a transmitir de si a mais espontânea brandura.
    Justamente – e não se diga coincidência e sim a clara manifestação da providência Divina – que nesse dia pai e mãe da Mariana estavam em casa, Era um sábado.
    Os pais de fato, traziam espontaneamente consigo a impressão imediata de serem pessoas simples e humildes, aos quais se somavam logo muito recato e humildade. Não passou despercebido também ao motorista que, não obstante a modéstia, expressavam-se corretamente.
    O que se quer dizer, enfim, é que, de pronto, e então já acolhido o prestativo cidadão dentro da sala de móveis singelos, é que tudo foi levado à conta de demorada troca de informações de parte a parte. Centrado no pai da pequena, o visitante quase não percebeu que já se lhe oferecia uma xícara de fumegante café.
    Há que se falar agora do desconhecido e prestante cidadão. Visita inesperada aos pais da menor, seu Airton e dona Elza. Revelou por primeiro que, aos sábados, ele médico, só atendia a emergências. Cuidava de fugir em fins de semana de sua estafante rotina semanal.
    Escapou-lhe acrescentar, até porque se podia vê-lo feliz e com incontido entusiasmo que, aos domingos era-lhe de regra a participação na missa dominical na sua Paróquia.
    Intuitivo – e aqui é a confissão dele próprio, por reiterar sua condição de católico convicto, essa prática o que de melhor herdara de seus pais.
    Em suma.
    Compreendia e aceitava que, com mais de quinze anos de uma união feliz, Deus não os aquinhoara a ele e a esposa com filhos, anelo da vida do casal, mas sem amargura nem ressentimento algum para com o Criador.
    Entanto, naquela manhã, inspiração inequívoca do alto, sem mais avisos, Deus o fizera ver que a encantadora Mariana o havia cativado de vez. Desculpou-se o doutor Marcílio – este afinal o seu nome – mas com empenho e prazer, assumiria todos e quaisquer encargos de auxílio à menor.
    Dez dias depois – estava–se em fins de dezembro – doutor Marcílio parou seu automóvel bem defronte à porta da casa da Mariana. Ele e a esposa Cecília, dona Elza e seu Airton e naturalmente a Mariana, dirigiram-se dali com o fim de participar da até hoje cognominada Missa do Galo.
    Natal de Jesus.
    Clima de Natal, na mais perfeita e sincera confraternização cristã.
    Sem levar a menina para si, cuidou dela daí por diante e de perto, com lhe proporcionar conforto e consideração, sem descurar várias vezes também de ajuda à família da menor, que assim escapara da pobreza extrema.

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