Cristo venceu o maligno: uma certeza da fé
Compartilhe

Dom Leomar Brustolin
Arcebispo de Santa Maria (RS)

Vivemos num mundo onde o bem e o mal caminham lado a lado. Muitas vezes, nos perguntamos por que há tanto sofrimento, injustiça e violência. A fé cristã não ignora essa realidade. Pelo contrário, ela nos ajuda a compreendê-la à luz da vitória de Cristo sobre o mal.
A Sagrada Escritura e o ensinamento da Igreja nos falam sobre a existência do Maligno, também chamado de diabo ou Satanás. Ele é um anjo que, criado bom por Deus, abusou de sua liberdade e se rebelou contra o Criador. Essa verdade de fé foi reafirmada desde os primeiros concílios da Igreja, como o IV Concílio de Latrão (1215), que declarou: “O diabo e os outros demônios foram por Deus criados bons, mas por si mesmos se tornaram maus” (DS 800).
Um inimigo vencidopor Cristo:
O Catecismo da Igreja Católica ensina que “o pecado dos anjos é irrevogável” (n. 393), não por falta de misericórdia de Deus, mas pela natureza espiritual deles, que faz com que sua escolha tenha sido definitiva. Apesar disso, Deus jamais perdeu o controle da história. Satanás não é um poder igual e oposto a Deus: ele é apenas uma criatura decaída, cuja ação é permitida por razões que só o Senhor conhece, mas que sempre cooperam “para o bem daqueles que O amam” (cf. Rm 8,28).
Santo Agostinho, doutor da Igreja, afirmava com sabedoria: “Deus nunca permitiria o mal, se não pudesse, em sua sabedoria e bondade, tirar dele um bem maior.” A maior prova disso é a cruz de Cristo. Ali, o Senhor enfrentou o mal até as últimas consequências e o venceu com amor. Por isso, não precisamos viver com medo. Como diz São João: “Aquele que está em vós é mais forte do que aquele que está no mundo” (1Jo 4,4).
Como atua o Maligno?
O diabo existe, sim, mas não é onipresente nem todo-poderoso. Ele não tem acesso direto à nossa vontade ou consciência. Atua por meio de tentações, enganos e distrações, tentando afastar-nos de Deus. O Papa Paulo VI advertiu com lucidez: “A maior vitória do demônio é fazer-nos acreditar que ele não existe” (Audiência de 15/11/1972).
A proteção de Deus não falha:
Mas Deus não nos deixa desprotegidos. Ao nosso lado, coloca anjos bons, especialmente o nosso anjo da guarda (cf. CIC 336), que nos acompanha desde o nascimento. Dá-nos também a graça, os sacramentos, a oração e a comunidade cristã. E, acima de tudo, dá-nos Seu próprio Filho: Jesus Cristo, que, com sua morte e ressurreição, derrotou definitivamente o mal.
A oração do Pai-Nosso termina com um pedido claro: “Livrai-nos do mal” (Mt 6,13). Esse “mal”, com letra maiúscula, é o próprio Maligno. Ao rezá-la, a Igreja reconhece a luta espiritual, mas proclama a vitória de Cristo. São Leão Magno disse com firmeza: “Nada pode o diabo contra quem está unido a Cristo pela fé e pela caridade.”
08
Por isso, o fiel católico não vive com medo, mas com confiança. Fortalece-se com a Palavra de Deus, a Eucaristia, a oração diária, o amor ao próximo e a confissão frequente. Essas são armas espirituais eficazes contra qualquer influência do mal.
Em tempos de confusões espirituais, relativismo e sincretismos, é necessário reafirmar com clareza: o diabo existe, mas Cristo é o Senhor! Com Ele, nada temos a temer. Ele é nossa luz, nossa força, nossa paz. Sigamos com fé, pois o mal jamais terá a última palavra. Essa palavra final pertence ao Amor que venceu a morte.