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Diác. Ézio Ribeiro
Par. Senhor do Horto e São Lázaro

“Vamos fazer um banquete. Porque este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado.”

Evangelho (Lc 15,1-3.11-32)

A parábola nos apresenta três personagens de referência: o pai, o filho mais novo e o filho mais velho. Detenhamo-nos um pouco nestas figuras. A personagem central é o pai. Trata-se de uma figura excepcional, que conjuga o respeito pelas decisões e pela liberdade dos filhos, com um amor gratuito e sem limites. Esse amor se manifesta na emoção com que abraça o filho que volta, mesmo sem saber se esse filho mudou a sua atitude de orgulho e de autossuficiência em relação ao pai e à casa. Trata-se de um amor que permaneceu inalterado, apesar da rebeldia do filho; trata-se de um pai que continuou a amar, apesar da ausência e da infidelidade do filho.

O amor do pai simboliza-se no “anel” que é símbolo da autoridade e nas sandálias, que é o calçado do homem livre. Depois, vem o filho mais novo. É um filho ingrato, insolente e obstinado, que exige do pai muito mais do que aquilo a que tem direito (a lei judaica previa que o filho mais novo recebesse apenas um terço da fortuna do pai; mas, ainda que a divisão das propriedades pudesse ser feita em vida pelo pai, os filhos só tomavam posse, depois da morte dele. Além disso, ele abandona a casa e o amor do pai e gasta todos os bens que o pai lhe deu.

É a imagem do egoísmo, do orgulho, de total irresponsabilidade. Acaba, no entanto, por perceber o vazio, dessa vida sem sentido, e encontra coragem de voltar ao encontro do amor do pai. Finalmente, temos o filho mais velho. É o filho “certinho”, que sempre fez o que o pai mandou, que cumpriu todas as regras e que nunca pensou em deixar esse espaço cômodo e acolhedor que é a casa do pai. No entanto, o seu raciocínio é a lógica da “justiça” e não a lógica da “misericórdia”.

Ele acha que tem créditos superiores aos do irmão e não compreende nem aceita que o pai queira exercer o seu direito à misericórdia e acolha, feliz, o filho rebelde que volta. A “parábola do pai bondoso e misericordioso” nos apresentar a lógica de Deus. Deus é o Pai bondoso, que respeita absolutamente a liberdade e as decisões dos seus filhos, mesmo que eles usem essa liberdade para procurar a felicidade em caminhos errados; e, aconteça o que acontecer, continua a amar e a esperar ansiosamente o regresso dos filhos rebeldes.

Quando os reencontra, os acolhe com amor e os reintegra na sua família. Essa é a alegria de Deus. É esse Deus de amor, de bondade, de misericórdia, que se alegra quando o filho regressa. A parábola pretende ser também um convite a deixarmo-nos arrastar por esta dinâmica de amor no julgamento que fazemos dos nossos irmãos. Mais do que pela “justiça”, que nos deixemos guiar pela misericórdia de Deus .Esta parábola nos convida, finalmente, a não nos deixar dominar pela lógica do que é “justo” aos olhos do mundo, mas pela “justiça de Deus”, que é misericórdia, compreensão, tolerância, amor.

Com que critérios julgamos os nossos irmãos: com os critérios da justiça do mundo, ou com os critérios da misericórdia de Deus? As nossas comunidades devem ser o espaço onde se manifesta a misericórdia de Deus.