O Logos salvífico em tempos de Novilíngua
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No coração da teologia cristã, o Logos – termo grego que significa Palavra ou Verbo – emerge como a essência divina, imersa e sustentadora de todo o cosmos. Esse conceito, profundamente enraizado na identificação de Jesus como o próprio Logos, tal como apresentado no Prólogo do Evangelho segundo João, ressoa não apenas como uma declaração de Sua divindade, mas também como o alicerce da doutrina da Trindade dentro do cristianismo.
A filosofia helênica, particularmente através de figuras marcantes como Heráclito, já havia introduzido o Logos como um princípio racional ordenador do cosmos. No entanto, a teologia cristã expandiu esse conceito para além de uma força impessoal, conferindo-lhe uma dimensão pessoal e relacional. O Logos, nessa ampliação, não é meramente uma entidade distante, mas um Deus pessoal e acessível, que deseja estabelecer uma comunhão profunda com sua criação. Na figura de Jesus, o Logos torna-se a expressão máxima da comunicação de Deus com a humanidade, sublinhando um Deus que não se mantém alheio ou indiferente, mas que entra na história humana com um propósito de redenção.
Assim, a encarnação do Logos não apenas revela Deus ao mundo, mas também lança luz sobre a verdadeira natureza da realidade humana (Gaudium et Spes, 22), uma realidade intrinsecamente relacional e ancorada no amor divino. Isso desafia as perspectivas reducionistas que interpretam a existência apenas sob lentes materiais ou mecanicistas, convidando a uma compreensão mais rica e profunda da verdade. A verdade, como revelada por Cristo, não se limita a uma abstração ou doutrina fria; ela se manifesta como uma realidade viva, expressa na presença e nos ensinamentos de Jesus, onde palavras e ações se entrelaçam. Os milagres, parábolas e atos de compaixão de Jesus não são apenas eventos isolados; são manifestações da verdade sobre o Reino de Deus, revelando o caráter divino e as intenções amorosas para com a humanidade.
Por outro lado, “1984”, de George Orwell, é uma distopia que explora o poder totalitário e sua capacidade de manipular a verdade através da linguagem. A obra introduz o conceito de Novilíngua, uma versão da língua inglesa artificialmente construída pelo regime totalitário para limitar a capacidade de pensamento crítico e independente e, efetivamente, controlar a percepção sobre a verdade e a moralidade.
O protagonista da obra é Winston Smith. Ele é um membro do Partido Exterior na distópica nação de Oceania, um regime totalitário liderado pelo enigmático Big Brother. Winston trabalha no Ministério da Verdade – perceba a contradição -, onde sua função é reescrever a história de acordo com a linha partidária e eliminar qualquer evidência de desvio das “verdades” estabelecidas pelo partido. Através da simplificação do vocabulário e da eliminação de palavras consideradas subversivas, o Partido não apenas restringe as formas de expressão, mas redefine os conceitos de verdade e realidade. Esta manipulação da linguagem visa erradicar a capacidade dos indivíduos de conceber ideias contrárias ao regime, promovendo uma realidade unidimensional onde a verdade é o que o Partido declara ser: “Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado”.
A maior diferença entre o Logos e a Novilíngua de “1984” reside na natureza e no propósito de sua relação com a verdade. O Logos, como a expressão divina, é a fonte última da verdade (cf. Jo 14,6), oferecendo uma revelação que visa libertar e iluminar a humanidade. Em contraste, a Novilíngua é desenhada para restringir o pensamento, manipular a percepção da realidade e consolidar o poder do Estado.
Hoje a Novilíngua manifesta-se através de diversas formas de manipulação da linguagem e de redefinição de conceitos, desempenhando um papel crucial na forma como a informação é apresentada e percebida na sociedade contemporânea. Esta manipulação pode ser observada na mídia, na publicidade, na política, no entretimento, na Academia, na escola e nas redes sociais, onde a linguagem é frequentemente utilizada para moldar a opinião pública, influenciar comportamentos, vender o supérfluo, controlar o discurso e, até, linchar um pensamento ou um indivíduo (cf. CF: Texto Base 2024, 32-33).
A mídia e as redes sociais, com seu vasto alcance e influência, tornaram-se arenas primordiais para a aplicação de uma Novilíngua moderna. Através da seleção cuidadosa de palavras e da apresentação de informações de maneiras específicas, é possível alterar a percepção da realidade pelos indivíduos. Esse fenômeno é exacerbado pela propagação de fake news, que se aproveita da manipulação linguística para criar narrativas enganosas ou completamente falsas, destinadas a confundir, polarizar ou manipular o público. O que era lenda urbana ou mentira, vira, da noite para o dia, verdade “cientifica”, fundamentada por um bando de falsos especialistas, feitos papagaios de pirata, que, por inúmeras vezes, negam o senso comum.
Essa engenharia social de desconstrução de conceitos como Deus, Igreja, vida, família, amor, casamento, sexo, gênero, fé, paz, justiça, tolerância -entre tantos – reflete uma estratégia para redefinir ou diluir o significado dessas palavras. Ao alterar a linguagem e os significados comuns, cria-se um ambiente onde os conceitos fundamentais podem ser reinterpretados, levando à confusão e ao relativismo moral. Essa estratégia pode ter o objetivo de desestabilizar as normas sociais estabelecidas e promover novas formas de pensar alinhadas a interesses de poder, independente se de “direita” ou “esquerda”, pois, a dualidade desses termos já é novilíngua. Parafraseando Nosso Senhor, o diabo não é só pai da mentira (Jo 8,44); é pai da Novilíngua também.
Em um mundo saturado de relativismo e narrativas manipuladas, a identificação de Jesus como o Logos oferece um ponto de ancoragem firme. A verdade que Ele personifica é imutável e transcendente, contrastando com a fluidez e manipulação das “verdades” propagadas pela Novilíngua moderna. Essa verdade não se conforma às conveniências do poder ou da política, mas permanece constante, oferecendo orientação e clareza em meio à tanta confusão. Mas saiba: estamos em guerra; numa guerra da linguagem.
A incorporação da verdade de Jesus-Logos como base da liberdade pessoal e coletiva implica um compromisso ativo com a integridade, a justiça e o amor em todas as áreas da vida e como a verdade é frequentemente manipulada para fins de poder e controle, viver segundo a verdade do Logos é um ato de resistência e uma proclamação de liberdade: “Liberdade é a liberdade de dizer que dois mais dois são quatro.”