A Diaconia de todos
Por Dom Vicente Costa
Bispo Diocesano de Jundiaí
“Quem quiser ser o primeiro, no meio de vós, seja o servo de todos” (Mc 10,44).
Caros leitores e leitoras: no dia 10 de agosto a Igreja comemora o padroeiro dos diáconos, São Lourenço, Diácono e Mártir. São Lourenço era espanhol e viveu no século III, em Roma, e foi um dos primeiros diáconos da Igreja. Diante da perseguição do Imperador Valeriano, o prefeito local da cidade de Roma exigiu de Lourenço que apresentasse os tesouros da Igreja. Para isso, o diácono pediu um prazo, que lhe foi concedido. Ele levou ao Imperador órfãos, cegos, coxos, viúvas, idosos, etc., enfim, todos os que a Igreja socorria e disse: “Eis aqui os nossos tesouros, que nunca diminuem e que podem ser encontrados em toda parte”. Perante a atitude do diácono, o prefeito sujeitou o santo a vários tormentos, até ser colocado em um braseiro ardente, sendo martirizado em 258, aos 33 anos.
Diácono, cuja instituição está em Atos dos Apóstolos 6,1-6, é o título dado ao terceiro grau do Sacramento da Ordem. Na Igreja, o clero é formado por três graus de sacramento da ordem sacerdotal: os bispos, presbíteros (ou sacerdotes) e diáconos. Os diáconos podem ser transitórios ou permanentes. O diácono transitório é quem recebe o grau diaconal apenas como uma etapa, para depois receber o Sacramento da Ordem no grau presbiteral, ou seja, para tornar-se padre. Já o diácono permanente é quem já é casado, não podendo progredir para o grau de presbítero, pois há a proibição do matrimônio para os padres. Assim sendo, os diáconos permanentes permanecem sempre como diáconos.
No clero local da Diocese de Jundiaí temos cinco diáconos transitórios, ordenados no dia 07 de agosto e 86 diáconos permanentes, sendo 15 eméritos, ou seja, que já completaram 75 anos de idade.
A palavra “diácono” surgiu a partir do grego diakonos, que significa “atendente” ou “servente”. De acordo com a doutrina, o diácono católico é o servo de Deus que tem como múnus (missão) essencial o cuidado com os necessitados de acordo com as necessidades da Igreja, como também o serviço à Palavra e da Liturgia (Eucaristia).
Contudo, apesar do diaconado ser um dom específico na Igreja, exercer a diaconia, como serviço, é um dever e uma missão de todos os batizados. A Igreja recebe sua identidade de Jesus Cristo, Profeta, Sacerdote, Pastor e Servidor. Por isso, se ele veio para servir, a missão da Igreja não pode ser outra. Está chamada a unir-se ao testemunho e ao serviço de seu Mestre. Para todo cristão, portanto, valem também as palavras de Jesus, que nos diz: “Quem quiser ser o primeiro no meio de vós, seja o servo de todos” (Mc 10,44).
Em sua trilogia Jesus de Nazaré, o Papa Bento XVI, ali como o teólogo Joseph Ratzinger, escreve um belíssimo comentário do lava-pés (cf. Jo 13,1-11), traçando um paralelo entre esta cena, o hino cristológico de Fl 2,5-11, o chamado hino da kénosis (rebaixamento, aniquilamento) e Ap 7,14 que diz: “Estes são os que vieram da grande tribulação. Lavaram e alvejaram as suas túnicas no sangue do Cordeiro”. De modo que o Papa conclui o seu pensamento, dizendo que a grande diaconia de Cristo foi a realização do seu Mistério Pascal (Paixão, Morte e Ressurreição): “Quando, no Apocalipse, aparece a formulação paradoxal segundo a qual os redimidos ‘lavaram as suas túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro’ (7,14), isso quer dizer que é o amor de Jesus até o fim que nos purifica, que nos lava. O gesto do lava-pés exprime isto mesmo: é o amor serviçal de Jesus que nos arranca da nossa soberba e nos torna capazes de Deus, nos torna ‘puros’” (Jesus de Nazaré. Parte II: Da Entrada em Jerusalém até à Ressurreição [2011], p. 62).
A diaconia bíblica, desse modo, se distingue de qualquer ação pública ou humanitária, porque ela inclui a partilha da fé e o convite para uma vida nova: a vida plena que só Cristo pode oferecer, vida esta que abrange a reconciliação com Deus, com o próximo, consigo mesmo e com a criação. A diaconia é uma atitude, é o estilo de vida exigido para os discípulos de Jesus. Ser um seguidor de Jesus é seguir o seu exemplo, fazer o que ele fez, ir onde ele foi e cuidar daquilo que ele cuidou. Isso vai muito além de uma simples atividade ou um projeto qualquer.
A diaconia, portanto, é centrada em Cristo: na sua vida, exemplo, morte e ressurreição. Em Cristo, Deus mostra o seu grande amor pela humanidade e por toda a criação, tornando-se um de nós, esvaziando-se e assumindo a forma de servo (cf. Fl 2,6-8). A diaconia tem em Jesus o seu modelo perfeito e exemplo mais eloquente. Ele cuidou das pessoas, curou os enfermos, cuidou dos pobres, tocou nos impuros, libertou os oprimidos, abraçou os marginalizados e confrontou a injustiça. Após a sua ressurreição, ele apareceu aos discípulos e lhes disse: “Como o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo 20,21). Assim, o exemplo que devemos tomar para o nosso estilo de vida deve ser igual ao de Jesus Cristo: vivermos uma vida de serviço a Deus e aos irmãos, principalmente os mais marginalizados e vulneráveis. A conversão implica não vivermos mais para nós mesmos, nem para satisfazer as nossas próprias necessidades, mas vivermos para aquele que por nós morreu e ressuscitou.
Deixo aqui o meu agradecimento a todos os diáconos de nossa Diocese, por tudo aquilo que são e realizam na Igreja com abnegação, de modo especial, pelo cuidado aos pobres e aos enfermos. E que todos nós, clérigos e leigos, levemos com palavras e atos os gestos salvíficos da diaconia do próprio Cristo em favor de toda a humanidade.
São Lourenço, Diácono e Mártir, intercedei por todos nós, para que sejamos servidores segundo Jesus Cristo, que “não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por muitos” (Mc 10,45).
A todos abençoo.
Dom Vicente Costa
Bispo Diocesano de Jundiaí