Separação e união com o divino

por Olga Sodré
Narrações sobre a separação entre Deus e os seres humanos podem parecer histórias antigas, mas são esclarecedoras sobre a atual condição humana. A Bíblia relata a desobediência de Adão e Eva ao comerem o fruto proibido da árvore do conhecimento do bem e do mal. Após comê-lo, em vez de usufruir a vida divina, o ser humano fica dividido entre o bem e o mal, a vida e a morte, e é separado de Deus. A expulsão do Paraíso simboliza essa ruptura da união do humano e do divino.
Os mitos gregos de Prometeu e da caixa de Pandora também narram simbolicamente a queda da condição humana, e se referem à separação com o divino e aos seus males. A mitologia grega conta que Prometeu rouba uma fagulha do fogo dos deuses para oferecer de presente ao ser humano. Os deuses resolvem dar aos humanos uma lição e criam a primeira mulher, Pandora. O irmão de Prometeu aceita Pandora em sua casa, onde se encontra a caixa que contém todos os males, mas a adverte para não abrir essa caixa. Pandora desobedece e os males se espalhem pelo mundo.
Como interpretar a caixa de Pandora e a disseminação do mal? O fogo representa a capacidade de conhecimento que é indevidamente apropriado de sua fonte divina. Esse roubo separa a fagulha do conhecimento da fonte de sua criação, e os males se propagam. Antes, os homens conviviam com os deuses e partilhavam o fogo divino inesgotável, enquanto que o fogo dado por Prometeu aos homens é apenas uma fugaz parcela desse fogo e se extingue. O roubo introduz, portanto, um desvio na condição do fogo: o que era antes uma dádiva divina inesgotável, passa a ser uma labareda manipulada pelos homens para sua satisfação. Separado da sua fonte, o fogo se torna a chama mortal da busca incessante da felicidade pela realização dos desejos.
Tais narrações são registros simbólicos que nos convidam a refletir sobre a atual condição humana, sobre a propagação dos males decorrentes da perda de participação na vida divina e sobre a verdadeira fonte da felicidade e do conhecimento. A restauração da condição primordial da humanidade foi realizada pela união do humano e do divino em Jesus Cristo. Ele trouxe um convite de resgate universal para a perda do ser humano de sua condição no Paraíso. Esse convite é oferecido a todos os seres humanos, e é representado pela dádiva do Espírito Santo. A descida do Espírito, em Pentecostes, é simbolizada por línguas de fogo sobre as cabeças dos discípulos. Essa descida do divino contrabalança a queda humana, restabelece a união do ser humano com o divino e a unidade entre as diferentes línguas, como era antes da separação com Deus e do desvio do fogo divino de sua fonte. Graças a esse evento histórico, temos a possibilidade de escolher entre o caminho aberto por Cristo, a nova árvore da vida, e o caminho da árvore, cujo fruto é a divisão do conhecimento do bem e do mal.